Ilhas Maurício: música, cor e fé

Mergulhe na história e na cultura do país-arquipélago do Oceano Índico

A caminho da Île aux Aigrettes, corais no fundo do mar aumentam a transparência da Blue Bay

Vez por outra, um carro corta o silêncio da estrada. O cinza do asfalto completa o cenário. Estamos chegando ao Grand Bassin, ou Ganga Talo, lago nas Ilhas Maurício venerado pelos hindus. De repente, em meio a cânticos ritmados, dezenas de pessoas surgem ao longe, tocando sinos, pratos e batendo palmas. Vestes de diferentes tons também transformam o lugar. À frente deles, segue um bezerro devidamente ornamentado. São peregrinos que vêm professar sua crença. Afinal, diz a lenda, o Grand Bassin, que é cercado de templos e imagens de deuses, guarda uma “passagem” para o Ganges, rio sagrado para o hinduísmo. É muita música, cor e fé.

Cercado por templos, o lago Grand Bassin, diz a lenda, seria uma “passagem” para o Ganges

Essa é apenas uma das surpresas das Ilhas Maurício, país-arquipélago do Oceano Índico, localizado a sudeste do continente africano. Na ilha principal, Maurício, está a capital, Port Louis. Tudo fica em até duas horas de carro. Ao todo, são dois mil quilômetros quadrados de área, equivalentes a um sexto das Ilhas Malvinas ou a apenas duas vezes o município de Paraty.

Formada por um planalto central e salpicada de montanhas, a ilha central tem mais de 300 quilômetros de costa, conta com extensa redes de hotéis e oferece enorme variedade de esportes náuticos, além de diferentes atividades de lazer. Surf, jetski, caiaque e vela? Estão lá. Mergulho, observação de golfinhos, pedalinho? Também. Hiking, ecoturismo e golfe? Idem. As cores do mar vão do verde transparente ao azul turquesa.

Velejar é só um dos vários esportes aquáticos oferecidos por resorts e agências de Maurício

O país não tem língua oficial de direito. Só de fato: o crioulo, que tem como base o francês. O inglês, entretanto, é o idioma no Parlamento, onde o francês também é usado – a maioria da população também fala as duas línguas. Membro da Comunidade Britânica das Nações (Commonwealth), da Francofonia e da União Africana, as Ilhas Maurício têm uma sociedade formada por imigrantes indianos, africanos, chineses e europeus. Assim, além de multilíngue e multiétnico, o arquipélago é multirreligioso e multicultural. Dá pra imaginar tamanha riqueza?

Enquanto país independente, Maurício é muito novinho. Fez 51 anos no último dia 12 de março. Tudo poderia ter começado com os portugueses, primeiros europeus a colocarem os pés no arquipélago, então desabitado, entre 1505 e 1507 (segundo diferentes fontes). Ou seja, apenas cinco ou sete anos depois de eles terem chegado ao Brasil. Mas nossos patrícios não se interessaram pelo lugar. Foram os holandeses que, menos de um século depois, se apossaram da ilha e, a partir de 1638, a transformaram em colônia. Mas, em 1710, eles também desistiram do lugar. Vieram, então, em 1715, os franceses, os segundos colonizadores, que, em 1810, foram vencidos pelos ingleses na luta pela posse daquele pedaço de terra e mar. A independência aos britânicos aconteceria apenas em 1968.

Os templos e as imagens de deuses no Grand Bassin dão a exata dimensão da importância da religião no país, onde quase metade da população é hinduísta. Cristianismo e islamismo também têm boa representação. O lago recebe muitos turistas. E uma dica: se, estando por ali, você ouvir cânticos ao longe, vá atrás. As cerimônias são abertas ao público – com a única exigência de que se deixe os sapatos na porta do templo. No Somnath Spiritual Park, os peregrinos do início desta reportagem ouviam seus líderes em volta de uma espécie de altar de fogo, enquanto, no mesmo ambiente, separadas por baias, quatro vacas eram alimentadas.

Na capital, dois mercados fazem a festa dos turistas. O mercado central, popular, é como um bazar barulhento, daqueles que vemos em países da África e Ásia: dezenas de lojinhas, vendendo diferentes tipos de artesanato, roupas coloridíssimas, além de frutas, hortaliças, e comes e bebes típicos. Pura diversão. E, lembre-se, quem pechincha, por ali, petisca. Mais adiante, em direção ao waterfront, facilmente alcançado por uma caminhada, está o shopping Le Caudan, que oferece restaurantes, bares e lojinhas mais sofisticadas. Também é ali que fica a marina da cidade.

Le Caudan, shopping no waterfront de Port Louis tem restaurantes, bares e lojas diversas

O litoral traz belas surpresas. Como a cachoeira formada na foz do Grand River South East, no distrito de Flacq, num espetáculo de movimento e som. Seu encontro com o mar se dá num recanto escondido da mata, que vai se descortinando enquanto os barcos de passeio avançam. Macacos pulando nos galhos, e esperando ganhar (ou pegar) frutas, remetem o turista brasileiro a conhecidas imagens do Rio Amazonas. Já do lado oeste da ilha, no distrito de Le Morne, também ao sul, o destaque vai para uma “cachoeira submersa”. A visão, que requer um passeio de helicóptero, acontece pela ação de correntes marinhas, associada a um fundo de mar de areia claríssima e águas transparentes. Há tours específicos para isso.

De volta à costa leste, a Île aux Cerfs é outro ponto muito procurado. Num complexo turístico privado, o visitante pode almoçar à beira-mar, tomar banho em praia que parece piscina, jogar golfe e também passar a noite numa luxuosa Bubble Lodge – bolha inflável e transparente, com quarto, sala e banheiro. A diária de casal sai a US$ 450.

Mais ao sul, a Île aux Aigrettes guarda o passado. E novas atrações. Não por sua mata tropical, que conhecemos tão bem no Brasil. Mas pelo trabalho desenvolvido pela Mauritian Wildlife Foundantion (MWF), ONG dedicada à conservação de plantas e animais naturais e endêmicos das Ilhas Maurício, ameaçados de extinção. Lagartos coloridos e outros répteis estão sendo protegidos. Exemplares de tartarugas gigantes, um dos animais de maior longevidade do planeta e que desapareceram da ilha, foram transferidos das Ilhas Seychelles, para readaptação. Elas não são tão grandes quanto a do país-doador, mas não fazem feio. A espécie pode chegar a mais de 400 quilos e um metro e meio de comprimento. Em média elas chegam a cem anos de idade, mas a mais velha de que já se ouviu falar teria morrido em 2006 na Índia, aos 255 anos.

Recuperação da fauna original: tartaruga gigante, extinta em Maurício e doada por Seychelles

Nem tudo, no entanto, pode ser recuperado. Como o mítico pássaro Dodô, parente distante dos pombos, que tinha cerca de um metro de altura e não podia voar. Ele só existiu em Maurício. Segundo registros, as aves eram presa fácil para os holandeses, que, se alimentavam delas. Em menos de cem anos, a espécie foi exterminada: o último exemplar teria sido visto em 1662. Em Aigrettes, o MWF mantém um museu que conta a história do pássaro. Na ida até lá, cruza-se a Blue Bay, onde pedras no fundo de um mar raso produzem um contraste de cor difícil de ser esquecer.

O mítico Dodô, endêmico de Maurício e extinto há 350 anos, tem museu na Île aux Aigrettes

É fato que ninguém precisa de ajuda para achar uma bela praia em Maurício. Mas lá vão algumas dicas: Péreybère, Trou Aux Biches, Belle Mare, Flic en Flac, Le Morne e Blue Bay. O clima no país é o tropical; e a temperatura, sempre agradável, variando entre 20 e 30ºC. As chuvas podem ser intensas, mas são passageiras.

Para entrar em Maurício, brasileiros precisam de certificado internacional de vacinação contra a febre amarela, tirado ao menos dez dias antes da viagem. A moeda é a rúpia mauriciana: R$ 10 valem 92 rúpias; US$ 10 valem 310. Maurício está sete horas à frente do Brasil.

COMO CHEGAR LÁ
Não há voos diretos do Rio para as Ilhas Maurício. E como as companhias aéreas fazem essa rota com uma ou duas conexões, não deixe de comparar o tempo de viagem. Pela South Africa (sa-airlines.co.za), há voos de ida (19h45m de duração) e volta (31h50m) a partir de R$ 8,1 mil, via São Paulo e Johannesburgo (África do Sul). Pela Lufthansa (lufthansa.com), o ticket sai a R$ 6,3 mil, sendo que a ida (33h) por São Paulo e Zurique e a volta (31h) por Zurique e Frankfurt. No caso da Airfrance (airfrance.com.br), a R$ 7,7 mil, a ida (31h) é via Paris e a volta (30h), por São Paulo e Paris.

NÃO FALTAM HOTÉIS
O que não falta nas Ilhas Maurício são resorts e hotéis. E com diárias bem diferentes umas das outras. Entre os mais luxuosos, está o One&Only Le Saint Géran (oneandonlyresorts.com), que passou por uma grande reforma e foi reaberto há um ano e meio. Localizado do lado leste da ilha, à beira-mar, oferece diversos esportes náuticos, área específica para crianças, piscinas e conta com restaurantes de cozinhas variadas. Diárias para casal a US$ 859. Outro resort também à leste, o Four Seasons (fourseasons.com/mauritius) sai a US$ 1.300. Já o Holiday Inn (ihg.com), mais ao sul, tem diárias a US$ 140.

Piscina e pérgulas do One&Only Le Saint Géran, que fica do lado leste da ilha principal

LINKS ÚTEIS

Site oficial de turismo _ O escritório de turismo das Ilhas Maurício dá várias dicas sobre o que fazer e onde ir, além de informações básicas para o turista. tourism-mauritius.mu

Île aux Aigrettes _ Visita guiada à ilha a partir de US$ 60, incluído passeio pela Blue Bay e transporte de ida e volta ao ponto de embarque. [email protected]

Concorde _ A agência é uma das que fazem reserva para a Île de Cerfs. Incluído almoço, praia e visita a cachoeira, o ticket sai a US$ 120. Além disso, a empresa oferece serviços de transfer, aluguel de carro e excursões em geral. concordemauritius.com

Léa Cristina viajou a convite do One&Only e da South Africa Airways

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